Bolonha, Itália, 1994. Como num filme, ou uma ficção literária, um grupo de ativistas anarquistas, decidem colocar a grande mídia local de pernas para o ar. Em jogo, o sensacionalismo desenfreado da TV. Se auto-intitulam Luther Blissett – pseudômino coletivo do grupo e a partir daí, promovem o que chamam mais tarde de “guerrilha psíquica”.
Num certo momento do ano de 1994, em Bolonha, chegam as redações dos jornais e TV´s várias denuncias de uma população horrorizada. As cartas falavam de vários animais mortos que foram encontrados em praças e centros religiosos. De repente a TV não falava de outra coisa. O que estaria acontecendo? Vários sociólogos e filósofos divagavam sobre os acontecimentos, a fim de chegar à uma resposta – colocaram o nome dos fatos de “horrorismo”.
E a resposta veio. Mas, de uma forma que a mídia local não ficou tão feliz. Uma carta chega às redações desmentindo tudo. Esses animais mortos nunca existiram – o que existiu na verdade foi o horrorismo sensacionalista da mídia local. E quem assinava a carta era um tal de Luther Blissett. Desesperados, os jornais se perguntavam: “Mas quem é esse Luther Blissett?”.
As ações do grupo não pararam por aí. Em 1995, chega a redação da TV local, uma carta assinada por vários amigos de um famoso ilusionista Inglês chamado Harry Kipper. Na carta, os amigos desesperados falavam que Kipper havia desaparecido depois de um passeio de bicicleta pelo norte da Itália.
Na tentativa de furo de reportagem, a mídia local adiantou-se de tal forma, que dias depois já estavam no norte do país e na Inglaterra fazendo uma reportagem especial sobre o “mágico”. Pouco antes de ir ao ar, a TV italiana foi informada pela polícia Inglesa que Harry Kipper nunca existiu. Não havia registro em nenhum lugar naquele país da existência desse “ilusionista”. É quando chega uma carta para a TV em que Luther Blissett confirmava a farsa.
Em outro momento da década de 90, chega às redações a informação de que uma seita satanista estava instalada na cidade, e além da informação, havia uma fita de vídeo. Mais uma vez, na tentativa de sair na frente à TV, decide jogar as imagens ao vivo no ar – mas por sorte, pouco antes eles decidem ver o que tinha na fita. Nas imagens, várias pessoas de capuz se reúnem em volta de uma fogueira. De repente um dos possíveis membros da seita começa a dançar a Tarantela, tira o capuz e levanta uma placa escrita Luther Blissett. Por pouco o sensacionalismo da TV não deixou o programa em maus lençóis.
Descobriu-se depois, que o grupo colocou o nome de Luther Blissett, baseado em um jogador de futebol negro de um pequeno time Inglês. O porquê do nome nunca foi esclarecido. Muitos acham na verdade que Luther Blissett era o escritor Umberto Eco. Isso porque um dos livros escritos pelos ativistas, a ficção, “Q o caçador de hereges”, lembra muito a escrita de Eco. Ao todo o grupo escreveu três livros, o “Totó Peppino e a guerrilha psíquica”, “Q o caçador de hereges” e o “Guerrilha psíquica”.
Em 1999, o grupo decide por fim ao projeto. Os veteranos perpetram um suicídio coletivo denominado “Seppuku” (suicídio ritual japonês). O fim do projeto não acaba com a identidade de Blissett, pois mesmo depois de acabar, varias pessoas pelo mundo, ainda continuam usando o pseudônimo.
Na verdade, para o grupo o fim também não chegou. Mudou-se o nome, e hoje se chamam Wu Ming, algo com anônimo em mandarim. E ainda continuam escrevendo e agindo.
Voltando para a realidade brasileira, em que a Globo elege e derruba quem quer, em que veículos como a Veja, manipulam a mente das pessoas como se essas fossem marionetes. Pergunto-me se já não é hora de no Brasil surgir um grupo com a finalidade de escancarar as mentiras midiáticas do dia a dia. Talvez seja a hora de mostrarmos ao Bonners da TV brasileira, que nem todo mundo é um Hommer Simpson*. E antes de tudo nós podemos mudar essa realidade de alienação coletiva. Ainda assim, é fato que uma massa de Hommer Simpsons tem muito mais valor, do que uma minoria de Burns que controlam as grandes redes de TV brasileiras – trazendo no currículo uma série de mentiras, apoios políticos e corrupção. Salvo a Cultura, a TV pública no Brasil, nunca existiu, e infelizmente se algo não for feito, continuará sem existir.
*Foi a público, como o apresentador do Jornal Nacional, Willian Bonner decide quais matérias irão ao ar. A decisão é feita através do nível de complexidade do assunto tratado. Se for um assunto mais complexo, Bonner rejeita dizendo que o Hommer Simpson não entenderá. Hommer Simpson na visão do apresentador é o povo brasileiro, que segundo ele não tem a capacidade intelectual de entender matérias mais elaboradas.
Rodrigo Valle Barradas.
LINKS: Luther Blissett: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luther_blissett
Wu Ming: http://www.wumingfoundation.com/












