
Tropa de Elite, osso duro de roer
Outubro 4, 2007
O filme Tropa de Elite, suscitou nos últimos dias muita polêmica. Um dos motivos está ligado a pirataria – é só se dirigir ao carrinho de DVD´s piratas mais próximo que encontrarás esse longa-metragem. Muitos assistiram quando ainda nem havia estreado nas salas de cinema Tupiniquim.
Sinceramente a questão da pirataria é a que menos me preocupa, até porque não é novidade para ninguém que me conhece, que sou a favor dela. O que realmente anda me tirando do sério, está ligado ao o fato do filme ter sido ovacionado a partir de uma interpretação equivocada de uma “elite” assustada e órfã do militarismo ditatorial.
Na estréia do filme, no cinema Odeon no Rio de Janeiro, uma platéia ensandecida gritou ao final “Caveira… Caveira…” (apelido dado ao BOPE) para espanto não só do Jornalista Arnaldo Bloch, colunista da Globo, como também de Wagner Moura, protagonista do filme em que interpreta o Capitão Nascimento.
Bloch escreveu uma crônica que taxava o filme de fascista, e Moura por sua vez, enviou-lhe uma carta de resposta dizendo que o filme não era fascista, muito pelo contrário, pois abria parâmetros para um forte debate sobre o assunto e convenhamos que debate foge da idéia do fascismo.
A verdade é que tanto Bloch quanto Moura tem um pouco de razão. O problema é que o colunista global equivocou-se por taxar o filme de fascista, quando fascista foi a reação do público. Já Wagner Moura escreveu um belo texto de resposta afirmando discordar quase cem por cento do personagem Nascimento. “Não, ‘Tropa de elite’ não é fascista. Não é possível que alguém que tenha visto Ônibus 174, um dos filmes mais humanistas dos últimos tempos, possa achar que o Zé Padilha (o diretor) tenha feito um filme fascista. Mas também fico preocupado quando vejo o capitão Nascimento ser tratado como herói. Fico pensando como reagiria ao filme uma platéia sueca. Não creio que pensariam naqueles policiais torturadores como heróis, assim como muita gente que vê o filme aqui também não pensa. Talvez os suecos não precisem de heróis. Talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeitadores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos”.
O Capitão Nascimento no filme, é extremamente categórico ao dizer que odeia policial corrupto e que, pior que os traficantes são os playboys que financiam o tráfico. Mas o que é mais engraçado, é que essa mesma ‘elite’, anda comprando o filme pirata. Oras, partindo para uma visão elitista, burocrática e defensora do corporativismo, qual a diferença entre financiar o tráfico e a pirataria, se os dois são considerados crimes?
Intrigado, me pergunto: Será que o caos atrofiou a mente do cidadão a ponto dele não perceber que o filme se passa no ano de 1997 e, dez anos depois, mesmo com o BOPE vulgo ‘caveira’, matando a torto e a direita, nada mudou e o que é pior, a situação só vem se agravando? Aliás, o BOPE existe desde 1970. Só pode ser cria da ditadura.
Não consigo aceitar que alguém possa defender torturas com direito até a cabos de vassouras enfiadas nos anus dos torturados. Isso me dá arrepios pois me lembra o AI-5. É preocupante e já dá para imaginar milhares de Capitães Nascimento, de arma em punho exercendo o direito à legítima defesa, disparando contra os ‘maconheiros’ financiadores do tráfico, defendendo com unhas e dentes o direito e acesso a uma sociedade mais conservadora em nome dos bons costumes e da vida dos filhos da classe média alta.
Eu me lembrei agora do filme “A industria do medo” e do cidadão de bem protagonista do filme, e aproveitando o ensejo tomo a liberdade de copiar e colar a descrição da comunidade do Orkut ‘Tenho medo do cidadão de bem’:
“O cidadão de bem é trabalhador, tem uma família saudável e feliz. Seus filhos estudam nos melhores colégios tradicionais onde recebem uma formação religiosa da moral e dos bons costumes. Todo domingo, no conforto de seu lar, ele e sua família assistem ao Fantástico. O cidadão de bem é a favor da pena de morte, nunca abandona suas convicções de direita, chama pobre de vagabundo, acha que homossexualismo é doença e avança sinal vermelho porque é muito ocupado e tempo é dinheiro. Ele guarda sua arma ao alcance das mãos para defender sua família feliz do bandido que entrará de madrugada e com toda sua bravura o matará antes que o bandido exploda sua casa. Ele também acha aborto uma coisa muito ruim (até sua filha ficar adolescente, é claro). O cidadão de bem é fã do futebol e, enquanto assiste aos jogos e toma cerveja, sua alegre esposa cozinha a janta. O cidadão de bem é feliz e o será até que um bandido roube sua arma.”
São esses cidadãos de bem, que vão às passeatas, aliás, às carreatas (manifestação de gente chique), para protestar quando um filho da classe média é assassinado. Foram eles que protestaram contra o brutal assassinato do garoto João Hélio e com razão, mas são os mesmos que fazem vistas grossas aos milhares de assassinatos de tantos João Hélios pretos, pobres e favelados todos os anos no Brasil.
É óbvio que o que o Brasil necessita, são políticas públicas de segurança e educação realmente efetivas. Até porque já está mais do que provado que para o grau de ‘caos’ em que nosso país chegou, não existe mudança a curto prazo. Deve-se investir maciçamente em educação e treinamento policial – agora, que torne uma polícia eficiente, só que mais humana. Assassinar todos os “algozes” que na verdade são cria de uma Estado omisso, não adianta de nada.
Aproveitando a letra da música tema do filme, Tropa de elite osso duro de roer/Pega um, pega geral, também vai pegar você. Chego à uma conclusão: Realmente o filme Tropa de Elite é um tremendo de um osso duro de roer – agora resta saber para quem. Se para os produtores do filme ao ver que a idéia vem sendo deturpada, ou para a elite ao saber que as suas interpretações divergem do que realmente o diretor quis passar.
Agora uma coisa é certa, o filme é muito bom, e trás uma atuação sensacional do Wagner Moura. E aproveitando, esse que vos fala, toma a liberdade de fechar com uma frase do Moura. “É nos momentos de caos que os regimes totalitários tomam força“. Então personas muy gratas, cuidado.
RODRIGO VALLE BARRADAS
Link da resposta do Wagner Moura: